Gramaticando

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Manual ou automático?

20 de Fevereiro de 2012

Um amigo meu, aproveitando a repentina última baixa nos preços das passagens aéreas, fez suas malas e embarcou para passar alguns dias em Buenos Aires. Voltou feliz, talvez por ter encontrado as mesmas coisas de que gosta por aqui, estádios de futebol, cerveja e mulheres. Como lá lhe faltavam os amigos para partilhar das aventuras, quis comprar algumas lembranças, ou, abusando do galicismo aportuguesado, suvenires. De volta, trouxe-me um isqueiro, todo metálico, com a figura de um casal, um homem de fraque preto abraçando pela cintura, e olhando nos olhos, uma mulher de vestido vermelho sangue colado ao corpo, numa sensual pose de dança. Sobre suas cabeças está a inscrição “tango”, em tipos à moda dos anos vinte do século passado.
Realmente um bonito presente. Entusiasmado, logo quis testar a chama do petrecho que, para o meu desânimo completo, só faiscava. Meu amigo suspeitava que era necessário algum combustível para alimentar o fogo. Pouco conhecedor que sou da Química e da Alquimia, concordei com ele. Resolveria aquilo na próxima vez em que fosse ao centro da cidade. Procuraria alguma tabacaria, loja de pesca ou similar, e lá compraria o tal fluido. Um parêntese gramatical: “fluido”, o substantivo, é grafado assim mesmo, sem acento, e é um dissílabo paroxítono (FLUIdo), que se costuma confundir com “fluído”, particípio do verbo “fluir”, palavra com três sílabas, também paroxítona, que apresenta um hiato (fluÍdo).

No mesmo dia, à noite, ligou-me meu pai, desesperado por não saber reconectar os cabos no aparelho de DVD, que, por algum motivo que até hoje desconheço, ele decidira desinstalar e mudara de ideia no meio do procedimento. Dei-lhe a explanação cromática, disse-lhe que era tudo autoexplicativo, não haveria de errar. (Não se espante, o vocábulo “ideia”, que parece estar manco, faltando-lhe alguma coisa, agora se escreve sem acento. Também vem sem hífen a palavra “autoexplicativo”, alterações do acordo ortográfico de 1990).
Possivelmente o medo de que minha mãe chegasse do trabalho irritadiça, querendo ver algum filme, obscureceu seu entendimento e ele não conseguia fazer a relação correta entre fios e suas cores. Tentei de todas as maneiras, umas mais didáticas, outras menos, em vão. Pedi-lhe desculpas, pois não tinha mais tempo para falar, precisava voltar ao trabalho.

Por ter terminado o dia cansado, resolvi ir à prospecção do combustível apenas na manhã seguinte. Logo cedo, já me encontrava na loja especializada. Perguntei ao vendedor, colocando o isqueiro sobre o balcão, qual era o fluido adequado àquele modelo. O homem revirou um armarinho de madeira e voltou com dois frascos. Um de preço exorbitante, outro de valor moderado. Disse-me que o efeito seria o mesmo, o que me fez optar, obviamente, pelo mais barato. Restava ainda uma grande dúvida em minha mente, como inserir o líquido.
O homem, por volta de seus 60 anos, olhou-me com certo desdém e disse, “Simples, é como abastecer uma lamparina”. Assumi vergonhosamente que nunca executara nenhum dos dois grandes feitos. Com algum ar de inconformismo, o vendedor separou o isqueiro em peças e me explicou como embeber a espécie de lã sintética que serve de reservatório com a quantidade certa de fluido. Eureca! Fez-se a luz bem ali na minha frente. Saí contente, com meu isqueiro no bolso. Caminhando, pela mesma calçada da loja, telefonei a meu pai, perguntando se ele ainda precisava de ajuda com o aparelho eletrônico.

Um amigo meu, aproveitando a repentina última baixa nos preços das passagens aéreas, fez suas malas e embarcou para passar alguns dias em Buenos Aires. Voltou feliz, talvez por ter encontrado as mesmas coisas de que gosta por aqui, estádios de futebol, cerveja e mulheres. Como lá lhe faltavam os amigos para partilhar das aventuras, quis comprar algumas lembranças, ou, abusando do galicismo aportuguesado, suvenires. De volta, trouxe-me um isqueiro, todo metálico, com a figura de um casal, um homem de fraque preto abraçando pela cintura, e olhando nos olhos, uma mulher de vestido vermelho sangue colado ao corpo, numa sensual pose de dança. Sobre suas cabeças está a inscrição “tango”, em tipos à moda dos anos vinte do século passado.
Realmente um bonito presente. Entusiasmado, logo quis testar a chama do petrecho que, para o meu desânimo completo, só faiscava. Meu amigo suspeitava que era necessário algum combustível para alimentar o fogo. Pouco conhecedor que sou da Química e da Alquimia, concordei com ele. Resolveria aquilo na próxima vez em que fosse ao centro da cidade. Procuraria alguma tabacaria, loja de pesca ou similar, e lá compraria o tal fluido. Um parêntese gramatical: “fluido”, o substantivo, é grafado assim mesmo, sem acento, e é um dissílabo paroxítono (FLUIdo), que se costuma confundir com “fluído”, particípio do verbo “fluir”, palavra com três sílabas, também paroxítona, que apresenta um hiato (fluÍdo).

No mesmo dia, à noite, ligou-me meu pai, desesperado por não saber reconectar os cabos no aparelho de DVD, que, por algum motivo que até hoje desconheço, ele decidira desinstalar e mudara de ideia no meio do procedimento. Dei-lhe a explanação cromática, disse-lhe que era tudo autoexplicativo, não haveria de errar. (Não se espante, o vocábulo “ideia”, que parece estar manco, faltando-lhe alguma coisa, agora se escreve sem acento. Também vem sem hífen a palavra “autoexplicativo”, alterações do acordo ortográfico de 1990).
Possivelmente o medo de que minha mãe chegasse do trabalho irritadiça, querendo ver algum filme, obscureceu seu entendimento e ele não conseguia fazer a relação correta entre fios e suas cores. Tentei de todas as maneiras, umas mais didáticas, outras menos, em vão. Pedi-lhe desculpas, pois não tinha mais tempo para falar, precisava voltar ao trabalho.

Por ter terminado o dia cansado, resolvi ir à prospecção do combustível apenas na manhã seguinte. Logo cedo, já me encontrava na loja especializada. Perguntei ao vendedor, colocando o isqueiro sobre o balcão, qual era o fluido adequado àquele modelo. O homem revirou um armarinho de madeira e voltou com dois frascos. Um de preço exorbitante, outro de valor moderado. Disse-me que o efeito seria o mesmo, o que me fez optar, obviamente, pelo mais barato. Restava ainda uma grande dúvida em minha mente, como inserir o líquido.
O homem, por volta de seus 60 anos, olhou-me com certo desdém e disse, “Simples, é como abastecer uma lamparina”. Assumi vergonhosamente que nunca executara nenhum dos dois grandes feitos. Com algum ar de inconformismo, o vendedor separou o isqueiro em peças e me explicou como embeber a espécie de lã sintética que serve de reservatório com a quantidade certa de fluido. Eureca! Fez-se a luz bem ali na minha frente. Saí contente, com meu isqueiro no bolso. Caminhando, pela mesma calçada da loja, telefonei a meu pai, perguntando se ele ainda precisava de ajuda com o aparelho eletrônico.