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Entrevistas
Bruno Gonçalves
 
 
Com formação ampla em disciplinas das áreas de humanas e exatas, o profissional de Ciências Econômicas possui uma grande gama de opções quando falamos em postos de trabalho. Investir em especializações, como em qualquer outra carreira, é fundamental. Nesta entrevista, o economista e especialista em políticas publicas e transportes Bruno Gonçalves fala sobre programas de trainee, mercado de trabalho, o cenário econômico do país e eleições presidenciais em 2010.

Por Marcelo Casagrande



1) SUA FORMAÇÃO É EM CIÊNCIAS ECONÔMICAS E A ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DE SUA ÁREA É AMPLA. QUAIS SÃO OS MERCADOS QUE O ECONOMISTA PODE TRABALHAR?

O estudante de Economia possui uma formação sólida e muito ampla, os cursos possuem uma boa carga de Ciências Humanas como História, Ciências Sociais ao mesmo tempo que temos um bom instrumental obtido através de Matemática, Estatística e Econometria. Essa formação completa reflete nas oportunidades de emprego para o economista. Destaco como primeiro mercado, o financeiro: nele o economista atua como analista elaborando cenários, coletando informações para a tomada de decisões de investimento. Adicionalmente o economista pode trabalhar em empresas, normalmente o caminho tradicional são os programas de Trainee. Nesse segmento o profissional atua na área de gestão e controladoria de grandes empresas, muitas vezes, em posição estratégica. A Administração Pública, principalmente o Governo Federal e os Governos Estaduais vêem se tornando um campo atrativo para o economista dada a carência de profissionais qualificados nessa área. Por último, o economista pode atuar na área acadêmica dedicando-se a pesquisa através de mestrados e doutorados visando atuação como professor universitário. Convém um pequeno comentário acerca das possibilidades da atuação como profissional liberal através de atividades de consultoria principalmente nas áreas de gestão e finanças.




2) COMO ESTÁ O MERCADO DE TRABALHO? EM ALGUMAS PROFISSÕES, APESAR DA OFERTA DE VAGAS SER POSITIVA, A CONCORRÊNCIA É ALTA. ESSA É UMA REALIDADE PARA OS ECONOMISTAS OU A SITUAÇÃO É MAIS TRANQUILA?

O mercado de trabalho como um todo no país encontra-se em um momento bastante favorável, fruto do aquecimento da economia. Entretanto o mercado hoje é muito competitivo e exigente. A obtenção de um bom emprego vai além de uma boa graduação, é necessário conhecimento de vários idiomas, intercâmbio etc. Para o economista a concorrência é muito forte. Por exemplo, em um processo de trainee um economista disputa com administradores, contabilistas, advogados e engenheiros. A concorrências em concursos públicos está cada vez maior. Portanto, o mercado possui uma disputa acirrada.




3) VOCÊ, TAMBÉM, SE ESPECIALIZOU EM TRANSPORTES E POLÍTICAS PÚBLICAS. COMO AVALIA, DE MANEIRA GERAL, OS TRANSPORTES NO PAÍS? O GOVERNO FEDERAL ACENA, COM A IMPLANTAÇÃO DO TAV (TREM DE ALTA VELOCIDADE), PARA UMA NOVA POSTURA EM RELAÇÃO AO TRANSPORTE FÉRREO?

Históricamente o país adotou como matriz de transporte o modelo rodoviário. Em um país com dimensões continentais como o Brasil essa não é uma escolha muito adequada. Em termos de logística a situação do setor de transportes é preocupante, a malha rodoviária está à beira do colapso, estradas esburacadas, velhas, muitas sem pavimentação e que comprometem a competitividade da economia brasileira . O transporte aéreo está em seu limite operacional, a expansão desse modal fruto do aquecimento da economia pode levar ao esgotamento desse modelo. Por outro lado, o transporte hidroviário e ferroviário são subutilizados.
A possível implantação do TAV tem um importante papel de ao menos sinalizar que o transporte ferroviário pode (deve) ser levado em consideração para o transporte de passageiros. O TAV, se implantado, terá um efeito benéfico de “ressuscitar” o transporte ferroviário de passageiros. O Governo Federal adota um discurso de que prioriza o transporte ferroviário, inclusive possui projetos para a expansão do TAV para Belo Horizonte e Curitiba. Esperamos que não seja mais um projeto com ótimas intenções e nenhuma execução.




4) EM ANO DE ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS, O CENÁRIO ECONÔMICO DO PAÍS TORNA-SE INCERTO. O QUE ESPERAR PARA O ANO DE 2010? ALTA DOS JUROS É DADA COMO CERTA POR ESPECIALISTAS, VOCÊ CONFIRMA ESSA TENDÊNCIA?

Pela primeira vez o Brasil chega a ano eleitoral com relativa estabilidade no cenário econômico e institucional. Desde a redemocratização não há no cenário atual nenhum fator desestabilizador e que possa causar alguma intranquilidade no cenário econômico. O País suportou a crise do ano passado relativamente bem, o consumo está em patamares elevados, inclusive com falta de algumas mercadorias como cerveja! O investimento está em níveis relativamente elevados para os nossos padrões. Muitos analistas de mercado acreditam que as turbulências podem vir do mundo político, dossiês, panfletos. Há uma grande expectativa quanto ao comportamento da taxa de juros muito provavelmente o Banco Central adotará uma política restritiva quanto a taxa de juros. Como o mercado interno está aquecido o BC tem preocupação com os índices inflacionários. Portanto, a tendência da política monetária para o ano de 2010 é de uma política restritiva com viés de aumento da taxa de juros.




5) INDEPENDENTE DE QUAL CANDIDATO SEJA ELEITO, TEREMOS REFLEXOS NA ECONOMIA DO BRASIL. VOCÊ ACREDITA QUE O MODELO ECONÔMICO SOFRA ALTERAÇÕES A PARTIR DE 2011?

O ano eleitoral, principalmente quando não há possibilidade de reeleição, traz à tona o debate a respeito de possíveis mudanças das diretrizes programáticas inclusive a política econômica. Não se vislumbra mudanças substanciais na política econômica seja com a vitória do campo governista seja a oposição. Os principais pilares da política econômica atual são: as metas de inflação, superávits primários expressivos e câmbio flutuante. Em caso de vitória de do campo governista é muito provável que a atual equipe seja mantida, pelo menos boa parte dela, e as principais diretrizes permaneçam a mesma. A principal mudança residirá no aspecto da melhoria do desempenho da máquina administrativa e redução das despesas com custeio. Uma vitória da oposição certamente implicará em uma maior ênfase na política fiscal, deverão buscar o aumento do superávit através de um aperto nas contas públicas, plataforma tradicional do campo oposicionista o que pode implicar em redução ou mudança de concepção de alguns programas. Convém ressaltar que ainda não é possível traçar previsões uma vez que as candidaturas ainda não estão consolidadas e os programas também.
Em síntese não se vislumbra grandes alterações na política econômica. Claro, haverá mudanças pontuais mas a essência continuará a mesma. A inflação continuará sendo o eixo principal em detrimento do crescimento.




6) ESTAMOS CHEGANDO AO FIM DE UM MANDATO DUPLO DO PRESIDENTE LULA. FAÇA UM BALANÇO DA ECONOMIA NACIONAL DOS ÚLTIMOS 8 ANOS.

Os oito anos da Era Lula levaram o Brasil a um patamar de destaque no cenário internacional, a um reconhecimento muitas vezes ignorado pela imprensa nacional.
Em termos econômicos o Governo Lula deve ser dividido de açodo seus dois mandatos.
O Primeiro mandato (2003-2006) caracterizou-se pela retomada da credibilidade do país em relação ao mercado estrangeiro, ao compromisso com o controle da inflação e com aos superávits primários. O primeiro mandato de Lula basicamente buscou o controle da inflação que estava à beira do descontrole em 2003, início de sue mandato, além de um câmbio extremamente desvalorizado. Havia um risco real de descontrole da inflação bem como da estabilidade monetária. Para tanto foi adotada uma política extremamente restritiva tanto no aspecto fiscal como no monetário No primeiro aspecto foram reduzidos gastos com despesas de custeio e com a máquina pública visando o aumento do superávit primário, concomitante a uma política monetária com aumento da taxa de juros que inibia o consumo. Assim a inflação foi controlada e o governo pode adotar com maior intensidade os seus programas sociais..
Fortalecido pelas urnas e pelos seus elevados índices de popularidade o governo adotou uma diretriz mais desenvolvimentista, com certa flexibilidade em relação a política fiscal e pressão a política monetária. A crise financeira mundial no final de 2008 levou o governo a adoção a medidas de estímulo à economia tais como a redução de determinados impostos como o IPI levando ao estímulo da produção e ao consumo. Como resultado o Brasil suportou relativamente bem o baque da crise com manutenção deu nível de emprego e consumo. Ao mesmo tempo foram mantidos os elevados superávits primários, isto é a poupança do governo para o pagamento da dívida pública. O Governo Lula pode ser sintetizado em termos econômicos como um governo conservador em termos monetários, controle da inflação e uma política social extremamente ativa com pacotes de estímulo para todos os setores da sociedade, algo como “ninguém será deixado para trás”. Entretanto ficarão para o próximo governo questões importantes como o crescimento da necessidade de financiamento externo, a questão cambial e problemas nos setores de saúde e infra-estrutura.

 
 
 
   
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